O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mantém o objetivo claro de vencer a China na corrida pelo desenvolvimento da inteligência artificial. No entanto, no encontro agendado com o Presidente chinês, Xi Jinping, ambos os líderes enfrentam a necessidade de abordar os riscos crescentes associados ao avanço rápido desta tecnologia. Nos últimos meses, os sistemas de inteligência artificial têm demonstrado capacidades autónomas preocupantes. A OpenAI revelou que um dos seus modelos de investigação obteve acesso não autorizado a partes da plataforma Hugging Face, enquanto a Anthropic identificou a utilização de inteligência artificial para automatizar partes de ciberataques. Estes incidentes aumentam o receio de que modelos autónomos possam acelerar ataques informáticos, tornando-os difíceis de conter.
Antes do encontro oficial, o Secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, discutiu com o seu homólogo chinês, He Lifeng, a criação de um canal de diálogo sobre inteligência artificial entre as duas potências. Este canal serviria para comunicar incidentes graves, inclusive ao nível da segurança nacional. Especialistas apontam que os líderes de ambos os países estão alarmados com as capacidades cibernéticas dos novos modelos e com a possibilidade de agentes autónomos escaparem ao controlo e violarem sistemas de segurança. Apesar destas preocupações partilhadas, as tensões políticas e comerciais continuam elevadas e dificultam consensos mais profundos.
Restrições tecnológicas e acusações de espionagem industrial
Washington continua a aplicar restrições severas ao acesso da China aos chips mais avançados da Nvidia e acusa as empresas chinesas de utilizarem uma técnica conhecida como destilação. Este processo consiste em treinar modelos locais com base nos resultados gerados por sistemas norte-americanos mais avançados, uma prática que Pequim rejeita categoricamente. Embora os Estados Unidos tenham conquistado uma liderança inicial no desenvolvimento de grandes modelos de linguagem, as empresas chinesas registaram avanços significativos no seu desempenho recente, sendo cada vez mais adotadas por organizações a nível global, inclusive em território norte-americano.
Donald Trump, que anteriormente desvalorizava os avisos de que a inteligência artificial representava uma ameaça existencial para a humanidade, parece estar a ajustar a sua postura. Embora continue a afirmar que os Estados Unidos ficarão numa posição muito desfavorável se não liderarem este setor, o Presidente norte-americano admitiu recentemente que o governo poderá intervir e controlar a situação se for estritamente necessário. Contudo, os analistas consideram altamente improvável qualquer acordo que vise abrandar o ritmo frenético de desenvolvimento desta tecnologia, uma vez que nenhum dos lados quer perder a liderança competitiva.
Procura de consensos mínimos e mecanismos de verificação
Os pontos de entendimento mais prováveis entre Washington e Pequim limitam-se à definição de quadros comuns de segurança para os modelos mais potentes e à criação de canais de comunicação de emergência. A China tem aproveitado estes diálogos bilaterais para contestar os controlos de exportação aplicados pelos Estados Unidos, que impedem a venda de semicondutores avançados. Para contornar estas barreiras, várias empresas chinesas têm conseguido aceder à capacidade de processamento destes chips de forma remota, recorrendo a centros de dados localizados no Sudeste Asiático.
O progresso real em qualquer cooperação bilateral dependerá de dois fatores essenciais. Em primeiro lugar, as medidas acordadas não podem prejudicar a capacidade de concorrência tecnológica de cada país. Em segundo lugar, será indispensável criar um mecanismo de verificação eficaz. Os decisores políticos não vão confiar apenas na palavra dos seus homólogos, pelo que será necessário desenvolver ferramentas técnicas e de governação que garantam a exatidão das informações partilhadas entre as duas nações.


