O cobre disparou para um máximo histórico esta quinta-feira, mas o novo rali surge num enquadramento de crescimento mais heterogéneo, tornando mais difícil interpretar o tradicional papel do chamado "Dr. Copper" como indicador fiável da saúde da economia.
Os futuros de cobre nos Estados Unidos subiram para cerca de 6,90 dólares por libra esta quinta-feira, prolongando uma forte valorização num metal utilizado em construção, eletrónica, transporte e, mais recentemente, em aplicações ligadas à inteligência artificial. Depois de tocar o novo máximo, a cotação recuou e encerrou a sessão abaixo desse patamar.
Em vez de sinalizar apenas um reforço do crescimento global, o preço recorde do cobre parece refletir uma combinação de fatores: oferta limitada, investimento intenso em redes elétricas, incerteza em torno de tarifas nos Estados Unidos e aumento da procura associada à eletrificação.
Historicamente, o cobre era visto como um barómetro da atividade económica mundial, apontando para uma aceleração ou travagem do crescimento. A evolução recente está a pôr esse papel em causa.
William Osnato, diretor de investigação e análise de dados de matérias-primas na Barchart, afirmou que a principal história por detrás dos preços elevados do cobre está na procura de centros de dados e de redes elétricas para suportar a rápida expansão da indústria de inteligência artificial. Segundo o especialista, o aumento da procura de cobre é "mais agudo e não o tradicional crescimento económico amplo que normalmente sustenta o cobre".
A escalada do preço também resulta da oferta limitada, num contexto em que a mineração é um negócio caro e a abertura de novas minas pode demorar cerca de 10 anos. Este horizonte prolongado tende a limitar a capacidade de resposta da oferta ao aumento da procura pelo metal vermelho.
Michael Widmer, responsável pela investigação de metais no Bank of America, indicou que o movimento recente não foi realmente impulsionado pela procura, mas sim pela oferta de cobre. O analista destacou que praticamente não existe crescimento significativo na produção mineira e que as perturbações nas operações têm criado constrangimentos adicionais.
O crescimento da oferta mineira tem sido fraco, com interrupções no Chile, o maior produtor individual de cobre a nível mundial. Neve intensa, chuva e ventos fortes têm afetado a atividade extrativa na região, reduzindo o fluxo de metal para o mercado.
Os potenciais direitos de importação ao abrigo da Secção 232 nos Estados Unidos e a repressão da China sobre a disponibilidade de sucata de cobre também apertaram as condições da oferta global em 2026. Em junho do ano passado, o Presidente Donald Trump assinou uma proclamação para impor tarifas de 50% sobre importações de produtos de cobre semiacabados e de derivados com elevado conteúdo de cobre.
Do lado da procura, o cobre tem mantido uma procura firme, muito ligada ao aumento da eletrificação e não a um boom económico generalizado. A utilização do metal está intimamente associada a cablagem, infraestruturas de transporte de energia e equipamentos elétricos, todos essenciais para a transição energética e a digitalização.
Na primeira metade deste ano, o investimento na rede elétrica da China aumentou 13% em termos homólogos. O país anunciou recentemente um plano ambicioso para investir cerca de 574 mil milhões de dólares em modernização e expansão das redes de transporte e distribuição de energia.
O movimento desta quinta-feira, no entanto, ganhou intensidade após a notícia de que a República Democrática do Congo decidiu proibir oficialmente as exportações de concentrados de cobre e cobalto, com o objetivo de incentivar o processamento doméstico. A medida restringe a oferta de concentrados no mercado internacional e acrescenta pressão sobre refinarias e fundições fora do país.
Osnato referiu que as perturbações na oferta têm levado consumidores a retirar metal dos armazéns da London Metal Exchange, o que está a elevar os custos de refinação. A diminuição de inventários disponíveis e o aumento das despesas na transformação reforçam a tendência de preços altos.
"É definitivamente uma nova situação para o Dr. Copper", afirmou o especialista, sublinhando que o papel tradicional do cobre como indicador direto da atividade económica está a ser substituído por um quadro em que restrições de oferta, políticas comerciais e megainvestimentos em eletrificação e inteligência artificial desempenham um papel central na formação do preço.

