A posição assumida pelo presidente da Federal Reserve, Kevin Warsh, no discurso em Jackson Hole foi inesperadamente agressiva, o que levou a um aumento nas expectativas de mercado para uma subida de juros já no próximo mês.
Na sequência das declarações de Warsh, o ouro desvalorizou e as ações asiáticas recuaram na segunda-feira. Os traders de futuros de fed funds passaram a atribuir uma probabilidade de 60,4% a uma subida de 25 pontos base em setembro, acima dos cerca de 56% registados na sexta-feira, com base na ferramenta FedWatch da CME.
Leitura dos analistas sobre o discurso de Warsh
Vários participantes de mercado interpretaram o discurso de Warsh como um sinal claro de maior propensão para o aperto da política monetária.
A Deutsche Bank sublinhou que o discurso em Jackson Hole surpreendeu pela especificidade em relação à economia e às perspetivas, bem como pela inclinação claramente agressiva. A instituição mantém a previsão de que a FED irá subir as taxas em 50 pontos base este ano, com aumentos nas reuniões de setembro e dezembro do FOMC.
Para a UOB, a ênfase nos riscos de inflação, combinada com o compromisso explícito de Warsh em alcançar a estabilidade de preços e a sua relutância em pré‑comprometer-se com ações futuras de política, reforça o risco elevado de aperto monetário este ano, ainda que admita a possibilidade de se tratar apenas de discurso sem ação subsequente.
Num comentário, a Nomura destacou que a sensibilidade aos dados de inflação de curto prazo é elevada. Warsh proferiu declarações agressivas no simpósio económico de Jackson Hole, enfatizando a importância da meta de inflação e sugerindo que a política poderá ter de reagir caso o processo de desinflação não esteja a ocorrer com rapidez suficiente.
James Ooi, estratega de mercado na Tiger Brokers, afirmou que a avaliação de Warsh de que o desempenho económico dos Estados Unidos tem sido sólido foi interpretada como um fator que reduz o argumento para cortes de juros no curto prazo. A sua ênfase na meta de inflação de 2% pode ser lida como um esforço para reforçar a independência e credibilidade da FED, garantindo aos mercados que a política monetária não irá ceder a pressões fiscais.
Já Matthew J. Maley, estratega-chefe de mercado na Miller Tabak + Co., considera que continua a não existir base empírica para uma subida de juros neste momento.
Na sua perspetiva, Warsh parece estar a valorizar o tema da inflação para, mais tarde, poder reclamar crédito por a ter controlado quando os indicadores de preços, inevitavelmente, recuarem. Maley acrescentou que os dados do mercado laboral têm sido fracos, enquanto os dados de inflação têm surpreendido positivamente desde a última reunião do FOMC.
Implicações para a estratégia da FED e relação com o Tesouro
Warsh reiterou que as taxas de juro de curto prazo devem permanecer como principal instrumento de política monetária, o que, segundo a Gavekal Research, implica que deverá continuar a reduzir a duração média do balanço da FED.
Para a Gavekal, esta estratégia parece colocar a FED em rota de colisão com o Tesouro dos Estados Unidos. No início de agosto, o Tesouro anunciou que irá aumentar as recompras de obrigações do Tesouro de longo prazo, numa aparente tentativa de evitar uma subida adicional das yields na parte longa da curva.
Segundo a Susquehanna, Warsh comprometeu-se a devolver a inflação à meta de 2% e indicou que as taxas podem subir mais, o que reforça o dólar e inverte parte da chamada "debasing trade" que tinha impulsionado o ouro cerca de 14% em agosto, naquela que foi a sua mais forte valorização mensal deste século.

