As bolsas dos Estados Unidos e da Europa estão a renovar máximos históricos, impulsionadas pelo entusiasmo dos investidores em torno da inteligência artificial. Economistas do Banco Central Europeu alertam, contudo, que a experiência de anteriores revoluções tecnológicas aponta para a probabilidade de uma correção acentuada das valorizações.
Segundo estes economistas, a investigação económica sobre períodos de forte transformação tecnológica conduz a uma conclusão preocupante. Uma correção das valorizações atuais do mercado de ações é considerada provável, à luz de dois cenários que identificam como possíveis.
Num primeiro cenário, a correção ocorre porque investidores excessivamente confiantes e otimistas empurram os preços muito além do seu valor fundamental. Quando esse entusiasmo se dissipa, o desfasamento entre expectativas e realidade leva a uma queda abrupta das cotações.
Num segundo cenário, uma descida dos preços deve ser esperada mesmo que as valorizações atuais reflitam corretamente o potencial da inteligência artificial para transformar a economia global e aumentar os lucros empresariais. Ou seja, mesmo com uma narrativa positiva sólida, o ajustamento de preços pode surgir pela evolução normal dos ciclos de mercado.
Os economistas estabelecem paralelos entre o atual boom da inteligência artificial e episódios históricos como o boom ferroviário do século XIX, a expansão da eletricidade e da rádio na década de 1920 e a ascensão da internet nos anos 1990. A comparação com a bolha das empresas tecnológicas do início dos anos 2000 reaparece assim como referência para o momento presente.
Em todos estes casos, as dúvidas dos investidores sobre o sucesso da transição ligada à nova tecnologia acabaram por transbordar para o conjunto da economia. À medida que a adoção da tecnologia se generaliza, a incerteza deixa de estar circunscrita a um setor específico e passa a ter impacto económico alargado.
Os economistas explicam que, à medida que a adoção se dissemina, a incerteza torna-se de âmbito económico. Se algo correr mal com essa tecnologia, toda a economia sofre. Este risco leva os investidores a exigir um prémio de risco mais elevado, o que, de acordo com a análise apresentada, tende a pressionar os preços das ações em baixa, mesmo quando o crescimento dos lucros se mantém firme.
Na sua leitura, ambas as perspetivas apontam para um período de boom seguido de uma correção, ou um recuo a partir dos níveis onde as valorizações tenham subido, em algum momento no futuro. Depois desse ajustamento, pode seguir-se uma recuperação e nova subida dos mercados acionistas, mas sem que seja possível antecipar o ritmo e a profundidade exata desses movimentos.
Os economistas sublinham que o momento preciso de uma eventual correção não pode ser conhecido antecipadamente. Padrões de subida e queda acentuadas nas bolsas só são identificáveis em retrospetiva, depois de os ciclos de euforia e de ajustamento já se terem desenrolado.
O texto prossegue com um aviso sobre as consequências de um recuo significativo nas valorizações e incentiva os investidores a prepararem-se para esse cenário. Os economistas destacam que muitos investidores de retalho europeus estão altamente expostos, possivelmente sem plena consciência, devido à forte presença das chamadas ações Magnificent 7 em fundos de índices globais e em fundos de pensões.
Apontam ainda um risco adicional: uma correção abrupta pode desencadear efeitos de contágio através de estruturas baseadas em fundos, com potencial para, em última instância, ameaçar a estabilidade da área do euro. A forma como esses veículos de investimento estão interligados com o sistema financeiro mais amplo pode amplificar o impacto de um choque nos mercados.
Os economistas sublinham também que, ao contrário do que aconteceu na fase da bolha das empresas tecnológicas, a situação atual oferece muito menos margem para reduzir taxas de juro ou recorrer à política orçamental para atenuar os efeitos de uma eventual correção. A capacidade de resposta dos decisores políticos é, por isso, vista como mais limitada, o que aumenta a importância de uma postura prudente por parte dos investidores.

