No debate global pelo domínio da inteligência artificial, o conceito de destilação tornou-se um tema central e controverso. Este processo refere-se, de forma geral, ao treino de um modelo de inteligência artificial utilizando as respostas ou dados gerados por outro modelo mais avançado. A prática gera forte contestação, uma vez que permite a laboratórios concorrentes criar produtos competitivos com base em tecnologias que exigiram investimentos de milhões ou biliões de dólares a outras empresas. Com o surgimento constante de modelos chineses altamente avançados, várias empresas norte-americanas e Washington têm acusado os laboratórios da China de utilizarem esta técnica para recuperar terreno, classificando a prática como roubo de propriedade intelectual.
Contudo, Aidan Gomez, presidente executivo da Cohere e coautor do histórico artigo científico de 2017 que serviu de base para ferramentas como o ChatGPT, defende que o progresso chinês não se deve apenas a este método. O responsável descreve os modelos de inteligência artificial da China como sendo de classe mundial, alertando que a vantagem dos laboratórios norte-americanos está a evaporar-se rapidamente. Segundo Gomez, embora tenha existido alguma cópia inicial, os laboratórios chineses desenvolveram uma capacidade excecional e independente. A prova disso reside no facto de os modelos mais recentes superarem os concorrentes norte-americanos em determinados testes de desempenho, algo que seria impossível de alcançar apenas através da destilação, uma vez que a cópia permite reduzir a distância, mas nunca ultrapassar o original.
Esta perspetiva contrasta com a posição oficial de Washington e de várias empresas do setor. A Anthropic, criadora do Claude, tem afirmado repetidamente que os laboratórios chineses recorrem à destilação ilícita, apontando diretamente empresas como a Alibaba, a Moonshot e a DeepSeek. Também a Agência de Cibersegurança e Segurança de Infraestruturas dos Estados Unidos alertou que as empresas chinesas realizam uma extração sistemática de funcionalidades proprietárias através de campanhas de destilação de conhecimento à escala industrial, classificando esta prática como o núcleo da estratégia de desenvolvimento da China e não apenas um complemento.
Por outro lado, vozes influentes alinham-se com a visão de Gomez. Sriram Krishnan, antigo conselheiro de políticas de inteligência artificial da Casa Branca, recordou recentemente que o próprio desenvolvimento de modelos ocidentais se baseou na destilação de conteúdos humanos disponíveis na internet, sendo este um princípio básico do funcionamento da ciência de computadores. O Ministério do Comércio da China também já rejeitou as acusações norte-americanas, classificando as alegações de destilação à escala industrial como infundadas e sem qualquer base jurídica.
O avanço tecnológico da China ocorre mesmo num cenário de fortes restrições ao acesso a semicondutores avançados de empresas como a Nvidia. Privados destes componentes, os programadores chineses foram forçados a criar arquiteturas mais eficientes e inteligentes, conseguindo obter melhores resultados com menor capacidade de computação. Analistas do setor apontam que desvalorizar este progresso como mera imitação constitui um erro estratégico dos decisores políticos ocidentais, que continuam a subestimar a capacidade técnica e a inovação genuína que está a surgir no mercado chinês.


