Guerras de preços no turismo ameaçam um dos poucos motores do consumo na China

Guerras de preços no turismo ameaçam um dos poucos motores do consumo na China

Guerras de preços no turismo ameaçam um dos poucos motores do consumo na China

O mercado de turismo doméstico na China está a enfraquecer mais rapidamente do que o previsto, o que coloca em risco um dos poucos pontos positivos numa economia de consumo que permanece fraca.

Na semana passada, a Hilton China passou a antecipar uma queda, em digitos baixos, na receita por quarto disponível (RevPAR) este ano, uma revisão em baixa face às expectativas anteriores de um desempenho estável. O RevPAR do grupo passou de um crescimento de 1,3% no primeiro trimestre para uma descida de 2,2% no segundo trimestre.

"A economia chinesa está aos solavancos. Está a crescer, mas não em linha com as taxas de crescimento anteriores", afirmou Christopher Nassetta, presidente e CEO da Hilton, na conferência de resultados de terça-feira.

Uma noite de fim de semana em agosto num resort Hilton em Dali, na província de Yunnan, destino popular entre turistas chineses, custa 173 dólares. Porém, outras opções recomendadas na plataforma de reservas Trip.com ficam por menos de metade deste valor, com uma das alternativas em torno dos 50 dólares.

Em todo o país, o RevPAR hoteleiro caiu 6% em termos anuais até ao final de julho, após uma descida de 1% em junho, de acordo com dados da Smith Travel Research referidos por um relatório da Goldman Sachs divulgado na terça-feira. Estes números surgem depois de uma subida moderada do RevPAR na primavera.

Segundo esse relatório, uma redução de três pontos percentuais na taxa de ocupação, acompanhada de uma queda de 1% na tarifa média diária face ao ano anterior, pressionou a receita do sector.

Esta inversão de tendência mostra como o boom turístico pós-Covid na China se está a esvanecer ao fim de três anos, num contexto de desaceleração mais ampla da economia e das vendas a retalho.

Gary Ng, economista sénior na Natixis, destacou que se verifica uma "forte queda da despesa per capita" em turismo desde o terceiro trimestre de 2025. O economista sublinhou que, embora o turismo continue a ser um ponto relativamente positivo, não consegue escapar à tendência macroeconómica mais abrangente. Acrescentou ainda que os consumidores chineses procuram cada vez mais experiências únicas ou de gama alta, num período de crescimento mais lento dos salários.

Dados da Trip.com mostram que a concorrência de preços é evidente nas três regiões chinesas mais populares para viagens neste verão: Xangai, Xinjiang e Yunnan.

Uma estadia de fim de semana em agosto na China pode custar entre 40 yuan (6 dólares) e 18 000 yuan (2 633 dólares) por noite, segundo uma análise de listas da Trip.com. Em Kashgar, Xinjiang, o preço mediano por uma noite é de apenas 192 yuan (28 dólares). Em Dali, Yunnan, a mediana é de 373 yuan (55 dólares) e, em Xangai, de 595 yuan (88 dólares). Embora quartos premium, com tarifas de milhares de yuan, puxem as médias para cima, os preços típicos são substancialmente mais baixos, com opções baratas amplamente disponíveis nos três destinos.

As vendas a retalho na China mantêm-se fracas desde a pandemia, com a despesa a recuar em maio face ao mesmo mês do ano anterior. Os preços ao consumidor também têm sido contidos, com uma subida de apenas 1% em junho, abaixo do esperado, na comparação anual.

A refletir uma queda em cadeia, o subíndice de viagens, componente do índice de preços no consumidor, recuou 0,6% em junho face ao mês anterior, de acordo com o Gabinete Nacional de Estatísticas da China. Em comentário a estes dados, o estatístico-chefe Dong Liquan apontou para descidas acentuadas nas tarifas de hotéis e nos preços dos voos.

Apesar de o sentimento em torno do mercado de turismo doméstico permanecer fraco, o segmento de viagens de entrada no país começa a surgir como fonte de esperança para o sector.

Graças à política chinesa que permite a entrada sem visto de viajantes de um número crescente de países, incluindo europeus, estão a chegar visitantes de economias com rendimento per capita substancialmente superior ao da China.

A operadora norte-americana de hotéis de gama alta Hyatt reportou na quinta-feira um aumento de 18% no número de visitantes provenientes dos Estados Unidos para a China e de 24% no número de visitantes oriundos da Europa no último trimestre.

Este segmento premium do mercado apresenta uma realidade muito mais positiva do que o restante sector. Hoplamazian destaca segmento de luxo

"As propriedades de luxo na China cresceram 11% neste último trimestre no país. Muito disso é lazer. Portanto, a China está em grande destaque", afirmou Mark Hoplamazian, presidente e CEO da Hyatt, na conferência de resultados.

O RevPAR da Hyatt na Grande China aumentou 7,2% em termos anuais no segundo trimestre, com Hoplamazian a apontar o "luxo de lazer" como principal motor deste desempenho.

Os viajantes estrangeiros oferecem um apoio moderado ao mercado turístico chinês. Estimativas da Natixis indicam que os visitantes internacionais representam entre 12% e 13% da despesa total em turismo na China.

Vê outras notícias!

Vê outras notícias!