Jeff Bezos, fundador da Amazon, desvalorizou na quarta-feira as preocupações sobre uma possível bolha em torno da inteligência artificial, defendendo que o volume de investimento atual acabará por impulsionar o avanço da tecnologia no longo prazo.
Em entrevista à CNBC, Bezos afirmou que mesmo que se confirme a existência de uma bolha, os investidores não devem estar preocupados. Na sua visão, o próprio excesso de entusiasmo é um motor importante para financiar desenvolvimento e inovação.
Bolha ou não, o investimento é positivo
Bezos explicou que as avaliações recorde e as grandes operações impulsionadas pelo investimento em IA têm alimentado o aumento acentuado do setor, levando muitos a questionar se se está perante uma bolha que poderá rebentar. Em paralelo, empresas de grande escala como a Amazon, a Microsoft e a Google continuam a investir milhares de milhões em infraestruturas de IA, com a despesa total a caminho de ultrapassar os 700 mil milhões de dólares este ano.
O fundador da Amazon argumenta, no entanto, que mesmo que parte deste capital seja mal alocado, o saldo para a sociedade será positivo. Segundo Bezos, o efeito da bolha é canalizar recursos para experiências que, de outro modo, não seriam financiadas, acelerando a evolução tecnológica.
Investidores ainda não distinguem bem boas e más ideias
Bezos reconheceu que o entusiasmo em torno da inteligência artificial está a levar a que praticamente todas as experiências sejam financiadas, incluindo ideias potencialmente fracas. Na sua perspetiva, isto acontece porque, nesta fase, os investidores ainda não aprenderam a distinguir de forma eficaz entre bons e maus projetos.
Para Bezos, esta indiscriminação temporária é aceitável. Argumenta que as boas ideias irão gerar retornos suficientes para compensar todos os projetos que falharem. Do ponto de vista da sociedade, ciclos industriais deste tipo podem ser saudáveis, já que aceleram o desenvolvimento tecnológico, mesmo que causem perdas financeiras para alguns investidores.
Comparação com a bolha da biotecnologia dos anos 90
Bezos comparou a atual euforia em torno da IA com a bolha da biotecnologia na década de 1990. Nesse período, a excitação em torno do potencial da biotecnologia gerou uma forte subida das avaliações de mercado, seguida de uma correção acentuada e de perdas relevantes para muitos investidores.
O ex-CEO da Amazon lembrou, porém, que apesar de muitos terem perdido dinheiro em determinados investimentos, a sociedade beneficiou de forma duradoura. Os medicamentos que foram desenvolvidos e que salvaram vidas permaneceram, independentemente da volatilidade dos mercados financeiros.
Altman vê excesso de entusiasmo, Bezos vê motor de inovação
As declarações de Bezos surgem num contexto em que outros líderes da indústria também chamam a atenção para a velocidade e intensidade do investimento em IA. Sam Altman, CEO da OpenAI, já advertiu que os investidores podem estar demasiado entusiasmados com a tecnologia. A OpenAI, responsável pelo chatbot que desencadeou a expansão da IA generativa, viu a sua avaliação crescer para mais de 850 mil milhões de dólares e reservou milhares de milhões para a construção de centros de dados.
Apesar destes avisos, Bezos insiste que o efeito global é positivo. Na sua leitura, mesmo que se forme uma bolha e haja correções, o impulso inicial de investimento deixará uma infraestrutura, conhecimento e produtos que continuarão a beneficiar empresas e consumidores.
IA no centro dos projetos de Bezos
Bezos revelou que grande parte do seu tempo, tanto na Amazon como na empresa espacial Blue Origin e na sua nova startup Project Prometheus, está hoje focada na inteligência artificial. Desde que deixou o cargo de CEO da Amazon em 2021, mantendo-se como presidente executivo, o empresário tem direcionado cada vez mais esforços para iniciativas com forte componente tecnológica.
Project Prometheus e a aposta em modelos de IA para tarefas físicas
O Project Prometheus, lançado em novembro com 6,2 mil milhões de dólares de financiamento, é liderado por Bezos e por Vik Bajaj, antigo executivo da Google X. A empresa dedica-se a desenvolver modelos de IA orientados para tarefas físicas, como engenharia, fabrico e conceção de medicamentos.
Bezos evitou entrar em muitos detalhes sobre os objetivos específicos da startup, mas adiantou que o Project Prometheus está a trabalhar na construção de um “engenheiro geral artificial”. O objetivo é criar um sistema que simplifique o trabalho de engenheiros ao desenhar objetos físicos, funcionando como uma versão muito moderna e avançada de software de desenho assistido por computador, como o CAD.
Por que razão o Project Prometheus é uma empresa independente
O fundador da Amazon explicou ainda porque decidiu lançar o Project Prometheus como uma empresa autónoma, em vez de o integrar na Amazon ou na Blue Origin. Na sua opinião, o projeto justifica um foco próprio e dedicado.
Bezos considera que o Project Prometheus é uma grande ideia por si só. A estrutura independente permite concentrar equipas e recursos num objetivo específico, sem competir diretamente com as prioridades de outras empresas do grupo. Essa separação, defende, é a melhor forma de garantir a atenção necessária para concretizar a visão de um “engenheiro geral artificial”.

