Microsoft aposta na tecnologia responsável para humanizar o desenvolvimento rápido de IA

Microsoft aposta na tecnologia responsável para humanizar o desenvolvimento rápido de IA

Microsoft aposta na tecnologia responsável para humanizar o desenvolvimento rápido de IA

Num setor tecnológico em que a velocidade continua a ser uma prioridade, a Microsoft está a tentar reforçar a ideia de que o desenvolvimento de inteligência artificial também pode seguir princípios de responsabilidade, transparência e inclusão. Jenny Lay-Flurrie, que assumiu em fevereiro a liderança do Trusted Technology Group da empresa, defende que o desafio passa por duas etapas: construir a tecnologia da forma certa e garantir que se mantém certa ao longo do tempo.

A Microsoft lançou o Trusted Technology Group no início de 2025 e concentrou aí todas as iniciativas de tecnologia responsável, incluindo a área de acessibilidade que Lay-Flurrie liderava anteriormente. A empresa passou a organizar este trabalho num modelo mais centralizado, diferente da abordagem de algumas concorrentes, como a Google, que mantêm uma estrutura mais orientada pela engenharia e por conselhos especializados de segurança. Esta opção da Microsoft foi sendo moldada ao longo dos anos, depois do memorando de Bill Gates sobre Trustworthy Computing, em 2002, que já colocava a fiabilidade à frente do lançamento de novas funcionalidades.

O peso da acessibilidade no desenvolvimento de IA

Para Lay-Flurrie, a tecnologia responsável assenta nos mesmos princípios que tem aplicado ao longo de grande parte da sua carreira na acessibilidade, nomeadamente justiça, transparência, inclusão e responsabilização. Na prática, a Microsoft trabalha com a ideia de que as pessoas devem ser responsáveis pela IA, independentemente dos resultados produzidos pelos sistemas.

Foi esse princípio que levou a empresa a corrigir um problema nos seus modelos. Quando percebeu que a sua IA não representava com precisão pessoas cegas, a equipa avançou para uma solução mais estruturada. Em alguns casos, as imagens geradas mostravam pessoas com venda nos olhos, um reflexo dos dados existentes na sociedade e nos conjuntos usados para treino. A resposta passou por introduzir dados adicionais para orientar melhor os modelos.

Para isso, a Microsoft comprou mais de 20 milhões de minutos de dados multimodais à Be My Eyes, uma plataforma de acessibilidade sem fins lucrativos que permite a pessoas cegas e com baixa visão ligarem-se gratuitamente a voluntários e à IA para obter apoio visual. Segundo Lay-Flurrie, esses dados incluíam vídeos feitos por pessoas cegas, com bengalas, cães-guia e situações do dia a dia, como procurar chaves em casa. O material foi anonimizado antes de ser usado no treino dos modelos.

Annie Brown, diretora executiva e fundadora da Reliabl, uma empresa de software de treino de machine learning focada na redução de enviesamentos e na melhoria do desempenho dos modelos de IA, considera, ainda assim, que há espaço para melhorar. Defende que não basta diversificar os dados, porque a camada de metadados, onde os ficheiros são rotulados, também pode introduzir enviesamentos.

Apesar da corrida pela IA estar a alterar o setor tecnológico, a Microsoft integra um movimento mais amplo de empresas que começam a partilhar publicamente aprendizagens sobre tecnologia responsável. A empresa disponibiliza o Microsoft Learn gratuitamente a estudantes, académicos e programadores, com módulos de formação sobre princípios de IA responsável. Para Brown, a Microsoft também pode aprender com organizações sociais mais pequenas, especialmente na forma como integram a inclusão na IA.

Lay-Flurrie resume essa evolução como um processo de escuta, validação e ajustamento contínuo. Em vez de procurar respostas definitivas, a prioridade passa por receber feedback, iterar, testar e corrigir problemas no menor espaço de tempo possível.

IA e inclusão no local de trabalho

A Microsoft é um dos principais fornecedores de tecnologia empresarial, o que faz com que a sua própria IA seja utilizada por outras empresas, muitas delas num contexto de redução de equipas em favor de soluções mais avançadas. A própria Microsoft também passou por cortes de postos de trabalho em 2025, cerca de 15 mil nas áreas de vendas, gaming e funções de contacto com clientes, enquanto reforçava outras equipas com foco em infraestrutura de IA.

Mesmo com despedimentos a continuarem em vários setores, Lay-Flurrie defende que a IA já está a ajudar trabalhadores que antes eram mais marginalizados, incluindo pessoas neurodivergentes e com deficiência. Na Microsoft, o primeiro grupo a receber acesso ao Copilot foi precisamente o grupo de colaboradores com deficiência.

No caso da comunidade surda, as funcionalidades de legendagem, transcrições, notas de reuniões e reconhecimento de língua gestual podem reforçar a autonomia. Já para a comunidade neurodivergente, a redução da carga cognitiva foi tão significativa que, segundo Lay-Flurrie, algumas pessoas não quiseram perder o acesso ao sistema.

Diego Mariscal, diretor executivo e fundador da 2Gether-International, uma aceleradora global de startups gerida por e para empreendedores com deficiência, reconhece que a Microsoft tem dado sinais claros de inclusão. Ainda assim, sublinha a importância de incluir pessoas com deficiência nos processos de decisão, não apenas por uma lógica de assistência, mas porque isso pode tornar a tecnologia mais avançada e mais acessível para todos.

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