A Nvidia apresentou resultados recorde no quarto trimestre de 2026, com receita de 68,1 mil milhões de dólares, crescimento de 73% face ao ano anterior. Apesar destes números que deveriam impulsionar a cotação, a ação permanece em compressão avaliativa, refletindo uma mudança fundamental no modo como Wall Street avalia a história da IA.
A desaceleração após a euforia
O padrão é evidente: a Nvidia viu o seu preço estagnar durante três trimestres consecutivos, enquanto os lucros continuavam a crescer a ritmo acelerado. Este desfasamento criou um cenário paradoxal. O múltiplo preço-lucro prospetivo comprimiu-se dos baixos anos 30 para cerca de 20, refletindo uma descida controlada e não um colapso abrupto.
Este movimento não é único da Nvidia. O setor tecnológico atravessou um dos piores períodos de desempenho relativo desde o início dos anos 1970, segundo análises da Goldman Sachs. A tecnologia negocia agora a um múltiplo preço-lucro prospetivo inferior ao das empresas de consumo discricionário, consumo essencial e industriais — uma situação que teria parecido inconcebível há 18 meses.
Mercado rejeita promessas, exige resultados
A alteração reflete uma recalibração nos critérios de avaliação. Enquanto em 2024 apenas 10% das empresas do S&P 500 mencionavam benefícios de IA, esse número subiu para 21% em 2026. Mas o mercado deixou de pagar por simples menções de IA. Agora exige evidência de monetização real.
As empresas que demonstram ganhos efetivos com IA — expandindo margens de fluxo de caixa acima da média global por um fator de dois — recebem recompensa. Aquelas que ainda navegam a incerteza sobre como extrair valor enfrentam penalização, como evidenciado pela recente queda acentuada no setor de software.
Os números que sustentam a oportunidade
Apesar da desaceleração da cotação, os fundamentais não colapsaram. Analistas projetam crescimento de 44% no lucro por ação para tecnologia no primeiro trimestre de 2026, representando 87% do crescimento total de lucros do S&P 500. A Goldman Sachs estima que o investimento em infraestruturas de IA representará aproximadamente 40% de todo o crescimento de lucros do índice este ano.
A Nvidia devolveu 41,1 mil milhões de dólares aos acionistas em 2026 através de recompra de ações e dividendos, mantendo 58,5 mil milhões sob autorização para recompras futuras. Estes fluxos de capital reforçam a robustez operacional subjacente.
O racional para o posicionamento atual
O rácio PEG (preço-lucro face ao crescimento) do setor tecnológico caiu agora abaixo do agregado de mercado global — um nível não visto desde o vale da bolha tecnológica de 2003-2005. Analistas de topo da Goldman Sachs e Morgan Stanley identificam nesta lacuna entre avaliações deprimidas e crescimento de lucros recorde uma oportunidade significativa.
A Nvidia enfrenta também dinâmicas competitivas mais complexas. O anúncio da plataforma Rubin, com potencial para reduzir custos de inferência até 90% face à Blackwell, sinaliza que a empresa continua a inovar. Mas o mercado está a incorporar a possibilidade de competição mais acirrada em infraestruturas de IA, justificando uma avaliação menos exuberante.
O que estava em jogo era um ciclo superlativo de investimento em IA. O que emerge agora é um mercado mais maduro, onde a promessa importa menos do que a entrega. Para a Nvidia, isso significa que as próximas datas devem demonstrar não apenas crescimento de receita, mas também evidência de que os clientes monetizam efetivamente os seus investimentos em IA — ou a ação permanecerá presa nesta banda de resistência.


