Nos Estados Unidos, pequenas empresas de transporte de mercadorias enfrentam uma crise profunda, com um número crescente de insolvências declaradas ao longo de 2025 e inícios de 2026. Esta tendência reflete pressões acumuladas no sector desde o fim da pandemia de covid-19, quando uma recessão no mercado de fretes começou a apertar as margens das transportadoras. Empresas com frotas limitadas, muitas vezes dependentes de tarifas spot, viram os seus rendimentos cair enquanto os custos operacionais disparavam, levando a processos de Chapter 11, o equivalente americano à insolvência com reorganização.
Causas estruturais da crise
A queda na procura de fretes é o principal motor desta onda de falências. Dados do mercado indicam uma redução de quase 7% no tonelagem de camiões a nível nacional no terceiro trimestre de 2025, comparado com o ano anterior. As publicações de cargas no mercado spot diminuíram 15% face a 2023, e até os volumes contratuais, mais estáveis, mostram sinais de declínio. Esta contração deve-se, em parte, a uma normalização do consumo pós-pandemia e a ajustes nas cadeias de abastecimento, que reduziram a necessidade de transporte rodoviário urgente. Ao mesmo tempo, os custos não relacionados com combustível atingiram níveis recorde, incluindo salários, manutenção de veículos e seguros, agravados por uma inflação persistente em despesas laborais e de combustível.
Para as pequenas transportadoras, que operam com margens reduzidas e sem a escala das grandes fleets, esta combinação provou fatal. Em 2023, cerca de 88 mil autorizações de operação foram revogadas, e em 2025, mais de sete mil empresas abandonaram o sector num único mês. As insolvências sob Chapter 11 aumentaram 30% em termos homólogos, afetando não só operadores independentes mas também firmas com décadas de atividade.
Casos emblemáticos e números recentes
Em janeiro de 2026, registou-se o pico de 20 pedidos de insolvência, o maior desde que os dados começaram a ser acompanhados sistematicamente. Sparhawk Trucking, uma empresa do Wisconsin com 47 anos, recorreu ao Chapter 11 em março para evitar a liquidação judicial após um acordo de 10 milhões de dólares num litígio de 136 milhões. A companhia devia mais de 10 milhões a um banco que financiara a compra de camiões e enfrentava varreduras de contas que impediam pagamentos de salários. Outros exemplos incluem Nortia Logistics, no Illinois, com dívidas entre 1 e 10 milhões de dólares a credores como a Union Pacific Railroad; Best Logistics, C&C Freight Network e Best Choice Trucking, que pediram proteção em abril de 2025; e Elite Carriers, Dolche Truckload e Xtreme Quality Logistic, entre oito firmas maiores que faliram ao longo do ano.
Estas insolvências não pouparam trabalhadores: casos como Ladden Capital, uma firma de private equity, arrastaram 900 empregos para o Chapter 11 em janeiro, enquanto SG Logistics, com 2100 motoristas, e Standard Forwarding Freight encerraram abruptamente. Em contrapartida, algumas como Texas International Enterprises mantiveram pagamentos a funcionários durante o processo.
Implicações para o sector e a economia
Esta debilidade financeira aponta para uma consolidação inevitável no transporte de mercadorias. Empresas menores, incapazes de competir com tarifas em baixa, saem do mercado, o que pode reduzir a concorrência e elevar custos para expedidores e consumidores. As disrupções nas cadeias de abastecimento já causam atrasos, afetando negócios dependentes de entregas pontuais. Inventários de camiões usados crescem e preços caíram 20% desde o pico de 2022, sinalizando excesso de capacidade. Apesar de esperanças num recuperação em dezembro de 2025, com apenas três falências, o início de 2026 confirmou a persistência da crise, com analistas a preverem mais saídas se a procura não recuperar.


