As empresas de cripto passaram anos a monetizar a volatilidade, mas agora tentam mostrar que conseguem sobreviver sem depender dela.
Os resultados do primeiro trimestre evidenciaram que a fase de ganhos fáceis e retornos impulsionados pelo entusiasmo em torno das criptomoedas está a perder força. A queda dos preços do bitcoin e do ether reduziu a procura especulativa e os investidores recuaram dos activos de risco em geral, num contexto de incerteza macroeconómica. Em consequência, a actividade de negociação nas bolsas arrefeceu e a participação de investidores de retalho diminuiu. Esta desaceleração ficou patente nas actualizações trimestrais das empresas cotadas, com plataformas de negociação, intermediários e firmas financeiras cripto a reportarem receitas mais fracas em transacções e staking e menor actividade de clientes.
Para a Coinbase e a Robinhood, nada disto é novo. A negociação foi durante anos o núcleo dos seus modelos de negócio, mas ambas trabalham há muito na diversificação das fontes de receita, alargando o leque de serviços financeiros.
Ainda assim, mesmo os negócios menos dependentes da negociação continuam inseridos num sector marcado por ciclos de forte expansão e contracção. E os resultados do primeiro trimestre, sobretudo das empresas que entraram em bolsa no ano passado, revelaram uma urgência maior em provar que conseguem gerar receita estável mesmo quando os preços e os volumes se encontram em baixa.
Vassilis Tziokas, vice-presidente de crescimento na Matter Labs, explicou que durante muitos anos os investidores aproveitaram a vaga de "loucura cripto" como um novo canal para negociar. Agora, porém, a cripto está a tornar-se algo maior, interligado com a economia real, o que eleva as expectativas sobre estas empresas. Na sua visão, elas precisam de diversificar as fontes de receita e expandir a operação para verticais adjacentes.
Robinhood e Coinbase aceleram diversificação
A Robinhood inaugurou a época de resultados das empresas cripto, apresentando uma surpresa negativa, com as receitas de negociação de cripto a colapsarem 47 por cento. Em paralelo, a actividade dos utilizadores desviou-se para outros produtos, em particular os event contracts, que impulsionaram este segmento em 320 por cento em termos homólogos, para 147 milhões de dólares em receita.
De forma semelhante, embora a Coinbase tenha falhado as expectativas de mercado tanto na receita como no resultado líquido, registou um desempenho encorajador nas áreas mais diversificadas da sua oferta, incluindo event contracts, derivados cripto com um aumento de 169 por cento face ao período homólogo e commodities tokenizadas.
Alesia Haas, directora financeira da Coinbase, explicou que o objectivo é diversificar aquilo que os clientes podem negociar, de forma a garantir que, à medida que os mercados e os comportamentos mudam, exista sempre algo que os investidores queiram transaccionar. Segundo a executiva, esta diversificação ajuda a atenuar parte da volatilidade associada a uma actividade centrada apenas em negociação de cripto.
Gemini, Bullish e Circle apostam em infra-estrutura e novos produtos
A Gemini, bolsa de cripto fundada e liderada pelos irmãos Winklevoss, também colocou como prioridade a estabilização da receita, tradicionalmente muito sensível aos movimentos de preço das criptomoedas. Para isso, está a expandir a oferta para áreas como previsões, derivados e, em breve, acções, ao mesmo tempo que procura controlar mais infra-estrutura financeira internamente. A empresa reportou ainda um aumento de 292 por cento em termos homólogos na receita associada ao cartão de crédito para consumidores.
Cameron Winklevoss, presidente da Gemini, explicou que a meta é passar de uma empresa exclusivamente centrada em cripto para uma organização mais ligada aos mercados em geral. Esta abordagem, defende, deve contribuir para suavizar as receitas. Se uma classe de activos estiver a ter um desempenho fraco face a outra, o efeito agregado deverá ser mais equilibrado e aproximar-se de uma abordagem indexada a diferentes classes de activos.
As acções da Gemini dispararam após um relatório de resultados mais positivo do que o dos seus pares e com o anúncio de um investimento de 100 milhões de dólares nessa estratégia futura.
A Bullish é outra empresa que procura responder aos desafios de receita através de um plano de expansão. A aquisição planeada da Equiniti, uma agência global de registo e transferência de títulos, no valor de 4,2 mil milhões de dólares, figura entre as maiores operações de fusões e aquisições da história do sector cripto. Com este movimento, a Bullish posiciona-se como uma empresa de infra-estruturas de mercados de capitais em vez de ser vista apenas como uma bolsa de cripto. A cotação reagiu em alta à notícia da aquisição, mas viria a ceder após a divulgação de resultados aquém das expectativas.
Já a Circle, embora mais protegida da volatilidade de negociação, continua exposta aos ciclos cripto, que influenciam o uso, a liquidez e a adopção da stablecoin USDC. A empresa apresentou um trimestre sólido, mas foi a sua Arc blockchain, um sistema operativo para a economia de IA agente, que concentrou maior atenção, ajudando a dissipar dúvidas sobre a viabilidade de longo prazo da Circle como emissora de stablecoins. As acções valorizaram cerca de 20 por cento e até analistas mais prudentes elevaram os seus preços-alvo.
De acumuladores de cripto a gestores de activos
Mesmo as empresas de tesouraria cripto, cotadas em bolsa e criadas com o propósito específico de comprar grandes quantidades de cripto para oferecer exposição aos seus accionistas, continuam estruturalmente presas aos ciclos do sector.
A empresa de Michael Saylor, Strategy, ilustrou esta realidade de forma particularmente clara ao afastar-se da política de nunca vender bitcoin para oferecer aos investidores uma abordagem mais próxima da gestão activa. A mudança foi anunciada na conferência de resultados, na qual a Strategy reportou um prejuízo líquido de 12,5 mil milhões de dólares devido à queda do preço do bitcoin.
Phong Le, presidente e CEO da Strategy, afirmou que a empresa irá vender bitcoin quando isso for vantajoso. Acrescentou que não irá ficar passiva, presa à ideia de nunca vender a criptomoeda.
Em fases de mercado em alta, a estratégia típica da Strategy de emitir capital próprio ou contrair financiamento para comprar mais bitcoin pode parecer relativamente simples de executar. No entanto, em períodos de baixa, este manual de actuação torna-se mais arriscado e aumenta a inquietação de alguns investidores.
Nos resultados da Sharplink, uma acumuladora de ether, surgiu a mesma mensagem de adaptação. A empresa anunciou de forma destacada que contratou a Galaxy Digital para a apoiar na alocação de parte do capital em estratégias on-chain geridas activamente. A reacção de Wall Street foi positiva, elogiando a abordagem descrita como mais disciplinada e diferenciada, num momento em que várias empresas procuram dissociar os retornos dos investidores da apatia dos mercados.

