A Salesforce, líder mundial em software de gestão de relações com clientes (CRM), viu as suas ações cair em bolsa, pressionadas por receios de que a inteligência artificial (IA) possa destruir o seu modelo de negócio tradicional. Apesar de resultados operacionais sólidos no último trimestre fiscal, com mais de 29 mil acordos fechados e uma quota de mercado superior a 40% em aplicações de produtividade comercial e atendimento ao cliente, os investidores mostram ceticismo quanto à capacidade da empresa acelerar o crescimento face à rápida evolução da IA. Esta reação ocorre num contexto em que o setor de software em geral enfrenta ventos contrários, com quedas acentuadas em empresas como Oracle e ServiceNow, ampliadas por cada novo anúncio de ferramentas de IA percebidas como disruptivas.
Perspetivas de vendas desiludem o mercado
A empresa comunicou uma previsão de faturação de cerca de 46 mil milhões de dólares para o ano fiscal que termina em janeiro de 2027, alinhada com as estimativas dos analistas, mas sem o entusiasmo necessário para contrariar as preocupações. As ações acumulam uma desvalorização de 37% nos últimos 12 meses. Os receios centram-se na possibilidade de que agentes autónomos de IA simplifiquem processos complexos que outrora dependiam de plataformas CRM abrangentes, reduzindo a procura por subscrições tradicionais. Concorrentes como Microsoft, Oracle e startups de IA avançam em automatização, o que pode canibalizar o negócio da Salesforce.
Adição lenta da IA e narrativas conflituantes
A Salesforce aposta em ferramentas como o Agentforce, que executa tarefas de desenvolvimento de vendas e atendimento ao cliente sem supervisão humana, com receitas anuais recorrentes a ultrapassar os 800 milhões de dólares no último trimestre, um aumento face aos 500 milhões anteriores. No entanto, a adoção em produção avança mais devagar do que as reservas indicam, segundo analistas do setor. As linhas de produtos principais – vendas e serviços – cresceram 8% e 7%, respetivamente, ajustados por flutuações cambiais, mas ficaram aquém das expectativas de Wall Street. Críticos, como Jim Cramer, questionam se o Agentforce representa uma revolução genuína ou apenas uma melhoria incremental, insuficiente para justificar os preços elevados e adaptada a um mercado que valoriza resultados concretos sobre licenças vendidas.
Resposta da empresa e perspetivas a longo prazo
Para mitigar a pressão, a Salesforce reforça o retorno ao accionista através de recompras de ações e aumento de dividendos. A empresa antecipa uma reaceleração do crescimento orgânico na segunda metade do ano, impulsionada pela integração de IA em fluxos de trabalho como o Slackbot. Ainda assim, o mercado receia que a automação agressiva da IA diminua o número de postos de software e a procura por licenças recorrentes, num setor onde o fluxo de notícias negativas domina. Analistas como os do Goldman Sachs alertam que a correção nas ações de software em 2026 pode ser apenas o início, com o setor a negociar abaixo do Nasdaq no maior fosso deste século. Apesar disto, o preço atual das ações cria uma desconexão com os fundamentais de longo prazo, como o fluxo de caixa estável, sugerindo potencial para investidores pacientes.


