A Foundation Future Industries, uma empresa de robótica sediada em São Francisco e com ligações à família Trump, está a desenvolver robots humanóides autónomos com dupla utilização, para ambientes industriais pesados e aplicações militares.
Num sector em que muitas empresas apostam em robots para tarefas domésticas e de serviço, a Foundation defende uma abordagem diferente: usar esta tecnologia para trabalhos perigosos, incluindo guerra e outras funções potencialmente letais.
Testes na Ucrânia e ambição militar
As primeiras versões dos robots estão já a ser testadas na Ucrânia, em apoio à guerra de Kyiv contra a Rússia. Segundo a empresa, estes ensaios focam-se em logística em áreas de risco e contam com apoio do governo dos Estados Unidos, além de coordenação com responsáveis ucranianos.
A Foundation afirma que os testes na Ucrânia já mostraram potencial para executar recolhas de abastecimentos, uma tarefa que expõe os soldados a perigo. A empresa quer enviar robots novos e melhorados para a Ucrânia ainda este ano, sob a forma do Phantom 2.
Sankaet Pathak, presidente executivo da Foundation, disse estar convencido de que a tecnologia já está num ponto em que pode substituir trabalhos perigosos para pessoas. Defendeu ainda que essa é a aplicação com maior benefício líquido para a humanidade.
Pathak tem como objectivo escalar a produção para milhares de unidades este ano e iniciar testes na linha da frente com os militares dos Estados Unidos nos próximos 18 meses.
Relação com Washington e financiamento público
A empresa já recebeu contratos públicos de investigação no valor total de 24 milhões de dólares para testes de viabilidade em inspecção, logística e manuseamento de armas, envolvendo o Exército, a Marinha e a Força Aérea.
Segundo Pathak, as conversas com responsáveis governamentais deixaram de se centrar apenas em investigação e passaram a abordar a forma de escalar o uso destes robots.
A Foundation apresenta a sua tecnologia como parte da competição geopolítica entre os Estados Unidos e a China e afirma querer entregar ao exército norte-americano os melhores robots que conseguir construir.
Eric Trump e as críticas políticas
O objectivo de levar a tecnologia para uso militar será concretizado com Eric Trump, filho do presidente em funções, que entrou recentemente na empresa como consultor estratégico-chefe.
Esse movimento gerou críticas da senadora democrata Elizabeth Warren, que acusou os contratos públicos da empresa de serem corrupção à vista de todos.
Um porta-voz da Foundation disse à CNBC que Eric Trump já era investidor na empresa antes de assumir o cargo de consultor e que ambas as partes partilham a visão de devolver a manufactura aos Estados Unidos.
Origem da empresa e desenvolvimento técnico
Pathak ficou conhecido por liderar anteriormente a Synapse, uma plataforma fintech polémica que declarou falência em 2024. Depois disso, fundou a Foundation com Arjun Sethi, antigo presidente executivo da Tribe Capital, e Mike LeBlanc, cofundador da Cobalt Robotics.
A empresa também chamou atenção após sugerir que tinha ligações estreitas à General Motors e que poderia receber investimento da fabricante automóvel, algo que a GM mais tarde rejeitou.
Os robots Phantom MK-1 têm limitações importantes. Cada unidade transporta cerca de 44 libras, não tem impermeabilização e ainda não possui autonomia de bateria suficiente para ser usado em escala.
A Foundation afirma que a versão Phantom 2 terá capacidades superiores, incluindo o dobro da capacidade de carga da Phantom 1 e, segundo Pathak, capacidades que descreveu como super-humanas.
Robots e guerra moderna
A Ucrânia tornou-se um campo de testes natural para a robótica e a inteligência artificial em combate. A guerra já viu o uso de robots terrestres para levar abastecimentos à linha da frente, bem como drones autónomos e assistidos por IA para ataques de precisão e reconhecimento.
O Pentágono ainda não divulgou o destacamento de um robot humanóide para fins militares, embora várias empresas norte-americanas já trabalhem com o governo nesse domínio.
Especialistas citados pela CNBC referem que robots com forma humana podem ter vantagens em certos ambientes urbanos, porque conseguem lidar melhor com escadas, escadas de mão, caves e corredores estreitos. Ainda assim, persistem dúvidas sobre a complexidade e os custos de produzir robots humanóides face a outras soluções.
A utilização de robots autónomos em combate também levanta questões éticas, sobretudo quando decisões sobre uso de força podem afectar vidas humanas. Pathak afirmou que, em alguns cenários críticos, os robots da Foundation terão de tomar decisões totalmente autónomas.
Mesmo assim, os responsáveis e especialistas citados no artigo sublinham que o grande desafio será provar que estes robots são mais práticos e mais rentáveis do que alternativas como robots com lagartas, voadores ou subaquáticos.


