A UnitedHealth Group recuperou o sentimento positivo dos investidores, com as ações a subirem cerca de 7% esta terça-feira, após divulgar os resultados do primeiro trimestre de 2026 que superaram as expectativas do mercado. O maior grupo de seguros de saúde privado dos Estados Unidos reportou lucro por ação ajustado de 7,23 dólares, acima dos 6,57 dólares esperados pelos analistas, enquanto a receita consolidada atingiu 111,7 mil milhões de dólares, contra os 109,6 mil milhões estimados.
A trajetória recente da empresa foi marcada por turbulência significativa. Desde o seu pico de 606,36 dólares há 52 semanas, a UNH chegou a cair mais de 45%, perdendo o seu estatuto de valor de referência no mercado americano. O momento mais agudo do colapso ocorreu em 27 de janeiro de 2026, quando a empresa divulgou resultados decepcionantes combinados com uma proposta regulatória que comprimiu as perspetivas do segmento Medicare Advantage: o Centers for Medicare and Medicaid Services (CMS) anunciou nesse dia um aumento de apenas 0,09% nas taxas de reembolso para 2027, muito abaixo dos 6% que os analistas esperavam, levando as ações a afundar mais de 10% numa só sessão.
O contexto regulatório inverteu-se entretanto de forma favorável, já que o governo Trump finalizou em abril de 2026 um aumento das taxas de remuneração do Medicare Advantage para 2027 significativamente superior ao inicialmente proposto, dando um impulso relevante às ações das seguradoras.
Recuperação baseada em recuperação operacional
A melhoria nos resultados é particularmente evidente no rácio de custo médico (Medical Benefit Ratio), que desceu para 83,9% no primeiro trimestre de 2026, face aos 84,8% registados no período homólogo e muito abaixo dos 85,5% que os analistas antecipavam. Um rácio mais baixo significa que a empresa cobrou mais em prémios do que pagou em prestações de saúde, melhorando diretamente a rentabilidade
Em termos anuais, a UnitedHealthcare, segmento principal do grupo, reportou receitas de 344,9 mil milhões de dólares em 2025, com crescimento de 16% face ao ano anterior. O braço de serviços Optum alcançou 270,6 mil milhões de dólares, representando um aumento de 7% em termos anuais. O desempenho foi particularmente forte no Optum Rx, a divisão de gestão de benefícios farmacêuticos, que cresceu 16% para 39,7 mil milhões de dólares e assinou mais de 800 novos contratos com clientes durante a época de vendas de 2025.
Desafios estruturais mantêm pressão nas margens
Apesar do otimismo renovado, a UnitedHealth enfrenta obstáculos estruturais que explicam a queda dramática dos últimos meses. A utilização de serviços de saúde permanece elevada, reflexo de uma procura reprimida pós-pandemia, do crescimento dos medicamentos especializados como os GLP-1 e de maior recurso a cuidados de saúde mental e domiciliários. A empresa nota que os custos médicos se mantêm "consistentemente elevados", apesar da melhoria no rácio trimestral.
A empresa reduz propositadamente a sua exposição a segmentos menos rentáveis, projectando uma contração de cerca de 3 milhões de membros em 2026 ao retirar-se de mercados Medicare Advantage e Medicaid subavaliados. Esta estratégia de consolidação e repricing é crítica para a recuperação de rentabilidade, com a gestão a indicar que o processo está aproximadamente 90% concluído para 2026, funcionando como o principal mecanismo para o crescimento esperado de dois dígitos do lucro operacional. O plano de transformação passa ainda pela venda da divisão britânica do Optum e por uma maior transparência no acesso aos cuidados de saúde.
Inteligência artificial como motor de margens
Um elemento central na recuperação de margens é a redução de custos impulsionada por inteligência artificial. A UnitedHealth aloca aproximadamente 1,5 mil milhões de dólares em investimento em IA para 2026, com o objetivo de atingir perto de 1 mil milhão de dólares em redução de custos operacionais, sendo que mais de 80% das chamadas de membros utilizam já ferramentas de IA, segundo a orientação fornecida pela gestão.
Contexto regulatório continua como factor crítico
A previsão de 2026 permanece condicionada pela incerteza regulatória em torno do Medicare Advantage. A companhia também antecipa desafios na atividade Medicaid, destinada a americanos de baixos rendimentos, devido ao desajuste histórico entre as taxas de reembolso e os custos reais das prestações médicas.
O CEO Stephen Hemsley reafirmou o compromisso da empresa em fortalecer a performance e posicionar-se para "crescimento durável e acelerado". O mercado, por enquanto, valoriza esta abordagem calibrada: a ação negoceia atualmente com um múltiplo preço/lucro em torno de 24 a 25 vezes, próximo da sua média histórica de cinco anos, o que sinaliza uma recuperação da confiança dos investidores, embora os desafios estruturais do sector continuem a impor cautela na avaliação do grupo.


