A USA Rare Earth, empresa cotada na NASDAQ com o ticker USAR e sediada no Oklahoma, anunciou hoje, 20 de abril de 2026, um acordo definitivo para adquirir a totalidade do Serra Verde Group, proprietária da mina e planta de processamento de terras raras Pela Ema, localizada em Goiás, no Brasil. O negócio, avaliado em 2,8 mil milhões de dólares, combina 300 milhões de dólares em numerário com a emissão de 126,849 milhões de novas ações da USAR, calculadas com base no preço de fecho de sexta-feira, 19,95 dólares por ação, o que totaliza cerca de 2,53 mil milhões de dólares em ações.
Esta transação surge num contexto de crescente tensão geopolítica em torno das terras raras, elementos essenciais para indústrias como a defesa, eletrónica de consumo, veículos elétricos e tecnologias de alta performance, incluindo ímanes permanentes NdFeB usados em motores elétricos e sistemas de armamento. A China domina cerca de 70% da produção global e 85% do processamento de terras raras, tendo implementado restrições exportadoras sucessivas, como a proibição de tecnologias de extração e separação em dezembro de 2023 e controlos mais apertados em abril de 2025, que afetam diretamente cadeias de abastecimento ocidentais, nomeadamente as dos Estados Unidos. Estas medidas chinesas, que incluem licenças obrigatórias para exportações de ímanes com traços de terras raras de origem chinesa e proibições a projetos militares estrangeiros, visam reforçar o controlo de Pequim sobre materiais estratégicos, agravando a vulnerabilidade dos EUA.
A aquisição da Serra Verde permite à USA Rare Earth controlar uma operação já em produção, com depósitos ricos nos quatro principais terras raras magnéticas, incluindo as pesadas e valiosas disprosio, térbio e itrio. Até 2027, espera-se que a Serra Verde represente mais de metade da oferta global de terras raras pesadas (HREE) fora da China, fortalecendo a capacidade de processamento da compradora e alinhando-se com os planos do governo norte-americano para diversificar fontes de abastecimento. A empresa recebeu já 1,6 mil milhões de dólares em financiamento misto do governo dos EUA em janeiro, enquanto a Serra Verde obteve 565 milhões de dólares de uma agência de desenvolvimento norte-americana em fevereiro. Adicionalmente, a Serra Verde assinou um acordo de 15 anos para fornecer 100% da sua produção inicial a um veículo de propósito especial apoiado por agências governamentais americanas e privados, destinado à produção de ímanes.
Reação do mercado e detalhes operacionais
As ações da USA Rare Earth reagiram positivamente ao anúncio, com uma subida de 6% no pré-mercado desta segunda-feira, 20 de abril de 2026, prolongando uma série de cinco ganhos consecutivos que acumulam 23,5% de valorização. O fecho do negócio está previsto para o terceiro trimestre de 2026, sujeito a aprovações regulatórias. Executivos sénior da Serra Verde juntar-se-ão à equipa da USAR após o fecho, integrando competências em mineração e processamento. Esta operação insere-se na estratégia mais ampla da USA Rare Earth para criar uma cadeia vertical integrada, desde a extração até à produção de ímanes, apoiada por investimentos do anterior governo Trump e agora em curso, com o objetivo explícito de contrariar a supremacia chinesa e garantir reservas críticas para a segurança nacional.
Implicações estratégicas para os EUA e o Brasil
Para os Estados Unidos, o negócio reforça a resiliência das cadeias de abastecimento face às restrições chinesas, que evoluíram de embargos pontuais, como o de 2010 contra o Japão, para controlos sistemáticos que impedem o fluxo de tecnologia e materiais para fins militares ou de alta tecnologia. A Serra Verde, única produtora de terras raras no Brasil, beneficia de um depósito de alta qualidade que já opera, evitando os desafios de arranque enfrentados por novos projetos. O Brasil emerge como parceiro chave na diversificação global, com esta transação a ilustrar como investimentos ocidentais podem viabilizar produções alternativas, apesar dos preços artificialmente baixos impostos pela sobreoferta chinesa decorrente de políticas industriais agressivas de Pequim.


