O tema das grandes fusões bancárias voltou em força aos bastidores do setor financeiro norte-americano. Em conferências do setor e apresentações de resultados trimestrais, a mesma questão repete-se: com a janela para fusões e aquisições amplamente aberta sob a administração Trump, quem será o próximo a avançar para uma grande operação?
Depois de anos condicionados por restrições regulatórias, os grandes bancos voltam a ter margem para comprar outros credores, incluindo bancos regionais com mais de 100 mil milhões de dólares em ativos. Enquanto JPMorgan Chase e Bank of America estão impedidos de realizar este tipo de negócio por já deterem mais de 10% dos depósitos a nível nacional, há duas megainstituições com espaço para uma grande aquisição: Citigroup e Wells Fargo. Os terceiro e quarto maiores bancos dos Estados Unidos dispõem de folga suficiente face ao limite de 10% de depósitos nacionais para avançar sobre um banco regional de dimensão relevante, segundo banqueiros de investimento, consultores e investidores.
Há dois anos, era praticamente impossível um banco desta dimensão obter aprovação para adquirir quase qualquer ativo relevante, referem especialistas do setor. Agora, a possibilidade de concretizar um negócio de grande escala é real e a expectativa é que estas instituições estejam a analisar ativamente eventuais oportunidades.
Depois de terem passado grande parte da última década num verdadeiro "castigo" regulatório, com o Citigroup condicionado por ordens de consentimento e o Wells Fargo limitado por restrições ao seu crescimento, ambos os bancos superaram obstáculos-chave e entraram numa fase de expansão.
Uma aquisição de grande dimensão, semelhante às concretizadas pela rival JPMorgan durante as crises de 2008 e 2023, permitiria à Wells Fargo ou ao Citigroup acrescentar milhares de agências e biliões de dólares em depósitos. No caso do Citigroup, que dispõe de apenas cerca de 650 agências nos Estados Unidos, um negócio deste tipo traria uma fonte crucial de financiamento mais barato. Para a Wells Fargo, que já possui uma extensa rede de balcões, a operação acrescentaria escala e novas oportunidades de redução de custos.
Analistas do setor defendem que está em curso uma forte corrida à escala e que o tempo para agir é limitado. Na perspetiva destes observadores, quem quiser fazer um movimento transformador deverá fazê-lo nesta fase, em que o enquadramento regulatório se apresenta mais favorável às fusões.
Apesar de existirem mais de 4 200 bancos nos Estados Unidos, apenas um número muito reduzido surge como alvo plausível para Wells Fargo ou Citigroup. O alvo ideal tem de ser suficientemente grande para ter impacto, mas suficientemente pequeno para que o comprador se mantenha confortavelmente abaixo do limite de 10% dos depósitos nacionais. Além disso, são fundamentais uma rede de agências complementar, uma boa compatibilidade cultural e uma base de depósitos de qualidade, fatores que tornam a maioria das potenciais operações difícil de justificar.
Aplicando estes critérios, destacam-se cinco bancos regionais como principais candidatos para qualquer um dos dois grandes bancos. A Fifth Third oferece um motor comercial e de banca de retalho no Midwest, com uma presença em rápido crescimento no Sudeste dos Estados Unidos. A Huntington disponibiliza uma base de depósitos de baixo custo, acompanhada por uma rede de agências em expansão em mercados de forte crescimento no Texas e nas Carolinas.
A Citizens assegura uma cobertura densa de banca de retalho e comercial em cidades ricas do Atlântico Central e da Nova Inglaterra. A KeyCorp aporta um negócio de banca comercial de média dimensão e uma rede de balcões que se estende desde a região dos Grandes Lagos até ao Noroeste do Pacífico. Já a Regions garante uma presença relevante em depósitos de retalho no corredor sul em rápido crescimento, incluindo estados como Texas e Florida.
Para além deste grupo, surge um alvo que se ajusta especialmente à Wells Fargo: a Zions, que oferece relações com clientes em estados ocidentais de forte crescimento, encaixando bem na atual presença geográfica do banco. Para o Citigroup, um potencial alvo com lógica estratégica é a First Horizon, pela sua presença no Sunbelt, a faixa sul dos Estados Unidos em rápido crescimento.
Wells Fargo e Citigroup recusaram comentar estes potenciais cenários. A maioria dos bancos regionais referidos também não comentou, com exceção de Huntington, Zions e First Horizon, que não responderam.
Questionada em abril sobre a hipótese de o Citigroup adquirir um grande banco, a presidente executiva Jane Fraser afirmou que a prioridade da instituição é o crescimento orgânico e não as aquisições. Ainda assim, executivos do Citigroup foram apontados como tendo discutido a possibilidade de comprar um grande banco regional para reforçar a sua base de depósitos. Na altura, o banco classificou essas notícias como especulação infundada e as ações da instituição caíram mais de 4% nesse dia.
Para muitos analistas que acompanham o Citigroup, o banco continua a tentar provar que a sua estratégia de melhoria interna é suficiente para elevar os retornos. Assumir a integração de um grande banco regional acrescentaria agências, funcionários, sistemas tecnológicos e riscos de integração num momento em que o Citigroup procura simplificar a sua estrutura. Neste contexto, vários analistas consideram que uma aquisição de depósitos seria uma distração significativa para o banco.
Já o presidente executivo da Wells Fargo, Charlie Scharf, tem sinalizado abertura a uma operação transformadora, que pode ir desde a compra de um banco até a aquisição de um operador de cartões de crédito, mesmo sublinhando em paralelo a prioridade ao crescimento orgânico. Em carta enviada aos acionistas em março, Scharf escreveu que a instituição deve considerar sempre formas de aumentar o valor da franquia, incluindo operações de fusões e aquisições, reconhecendo que os reguladores estão hoje mais recetivos a este tipo de movimentos. Embora tenha frisado que não existe qualquer pressão para concretizar um negócio, deixou claro que, se surgir uma oportunidade excecional, a Wells Fargo irá analisá-la.
Há, contudo, um obstáculo evidente. A vaga de consolidação que muitos antecipavam com o regresso de Trump à presidência em 2025 ainda não se materializou. Na realidade, o valor das fusões de bancos na América do Norte caiu para menos de metade, para 30,1 mil milhões de dólares nos primeiros seis meses de 2026, face ao período homólogo, segundo dados da EY. As barreiras regulatórias podem estar a diminuir, mas poucos bancos mostram vontade de vender enquanto lucros e cotações em bolsa continuam a subir.
Especialistas em fusões referem que a maioria das instituições apresenta margens de lucro confortáveis e avaliações em bolsa elevadas, o que aumenta substancialmente a fasquia para qualquer decisão de venda. Na prática, quase todos se veem mais como potenciais compradores do que como vendedores.
Investidores ativistas que pressionam os bancos a melhorar os retornos para os acionistas indicam que as administrações comparam de forma sistemática a economia de uma aquisição com a alternativa de recomprar ações próprias, o que cria maior disciplina na análise de negócios.
Apesar da escassez de vendedores, alguns banqueiros consideram que o momento continua favorável para fusões, descrevendo o enquadramento atual como o melhor desde a crise financeira. No último ano, o Congresso revogou restrições impostas na era Biden às fusões supervisionadas pelo Office of Comptroller of the Currency, e a Federal Deposit Insurance Corporation reintroduziu as suas orientações tradicionais para fusões, restabelecendo revisões aceleradas e reduzindo a barreira para aprovação regulatória.
No que toca a grandes aquisições, a Wells Fargo dispõe de algo que o Citigroup não tem: uma moeda de troca em bolsa mais forte. Isso pode tornar um negócio mais fácil de justificar, sobretudo se o alvo preencher lacunas geográficas ou de produto relevantes.
Outra via para ganhar escala passa pelas próprias combinações entre bancos regionais. Há anos que se especula que dois dos três maiores super-regionais, PNC, U.S. Bancorp e Truist, possam eventualmente unir-se para criar um novo gigante bancário capaz de enfrentar os maiores grupos do país.
Projeções da consultora Bain apontam para que as fusões entre bancos regionais possam criar entre um e três novos megabancos com pelo menos 1 trilião de dólares em ativos até 2030. A mesma análise, baseada em duas décadas de dados, conclui que o número de bancos regionais deverá encolher de 49 para, no limite, apenas 30 instituições. A Bain antecipa que mais bancos, em particular os regionais, utilizem fusões e aquisições para adicionar capacidades, sobretudo em tecnologia, incluindo inteligência artificial.
Esta tese mantém-se. Se Wells Fargo e Citigroup optarem por não avançar para um grande negócio, caberá aos bancos regionais decidir se podem ficar parados ou se terão de se juntar entre si para não perderem terreno na corrida pela escala.

